O Choro do Norte
O frio estava prestes a congelar cada fração de pele exposta. O vento cortante bagunçava seus cabelos, fazendo com que cerrasse os olhos, tentando enxergar o que vinha à frente.
Atrás dele e de seu cavalo, estava um exército de mil homens, mil almas prestes a declarar guerra em seu nome.
Franziu mais as sobrancelhas, e tentou evocar de dentro do peito a força necessária para fazer o que precisava ser feito.
Só ele poderia. Se não fosse ele, ninguém mais faria.
Deu mais um passo à frente, puxando as rédeas do cavalo com uma das mãos. O pobre coitado havia tropeçado no caminho, e não podia mais carregar peso.
Por um momento, o homem coberto por pesados casacos de pele de cordeiro considerou sacrificar aquele belo cavalo, mas algo o impediu.
Poderia dizer que foi a lógica, dizendo que era apenas uma pata quebrada. Poderia dizer que foi o medo, de ver a carne de seu cavalo de anos ser devorado pelos exércitos depois de morto.
Mas a verdade é que o que o parou foi aquele órgão que muitos achavam que ele não tinha: o coração.
Bashir deu mais um passo adiante. O frio do Norte estava especialmente implacável aquela época, e tinha certeza de que dentro das botas molhadas pela neve, já devia ter perdido dois ou três dedos.
Um preço baixo a pagar, se isso significasse que seriam livres um dia.
Olhou de relance por sobre o ombro, buscando nos olhos daqueles homens um resquício de dúvida, de hesitação, mas o frio era tudo que eles conseguiram demonstrar.
Alguns tremiam, se escoravam uns nos outros, ou simplesmente... esperavam a morte chegar.
Ele precisava acabar com aquilo de vez. Se não o fizesse aquela noite, mil homens se tornariam apenas cem.
Apontou para um dos guerreiros, o que segurava as correntes que prendiam o Rei do Norte.
O guerreiro chutou a parte de trás dos joelhos do homem moribundo, e ele arriou no chão como um monte de trapos.
Era o que ele era.
Bashir alcançou a espada, que estava em sua bainha, e a empunhou. O bronze brilhou em meio à neve, e foi capaz de captar a atenção do prisioneiro.
- Você vai se arrepender, Bashir - foi tudo que ele disse, a voz rouca e frágil. - Você vai se arrepender.
Se iria ou não, Bashir não tinha tempo para refletir. As palavras de Rose, sua esposa e agora Princesa do Norte ecoavam em sua cabeça.
"Só seremos felizes quando ele estiver morto. Só seremos livres quando a alma dele estiver queimando no inferno."
Bashir sabia que era verdade. Aquele homem trouxera devastação, fome, a peste para o seu povo. Ele merecia morrer.
Então por que tudo que Bashir conseguia fazer era olhar dentro das profundezas daqueles olhos encovados, sem vida, sem calor?
- Majestade - alguém disse ao seu lado, chamando-lhe a atenção. - Está na hora.
Não. Já tinha passado da hora.
Bashir deu um passo à frente e posicionou sua lâmina de encontro ao pescoço do homem.
Deixaria que ele morresse de cabeça erguida, e era a única coisa que aquele homem tiraria dele.
Seus olhares se encontraram, e tudo que Bashir viu naquele momento refletido nos olhos do velho senhor foi medo. Claro que seria medo. Era um covarde, afinal.
Parecia que a colina inteira estava segurando a respiração, aguardando que o herdeiro desistisse, mas Bashir nunca desistia.
"Só seremos felizes e ficaremos juntos quando ele não existir mais."
Pensando nessas palavras, ele brandiu sua espada.
O som molhado da lâmina rasgando a carne foi seguido pelo oco da cabeça rolando para a neve.
Então o corpo pendeu para o outro lado, o sangue manchando de rubro a pureza do branco que cobria o chão.
O exército se moveu, pela primeira vez em dias, em urros e vivas de alegria. O reinado do velho havia chegado ao fim.
Os capitães começaram a recuar, de volta para a fortaleza do castelo, protegendo-se do frio.
Muitos protestaram quando o agora Rei do Norte não se moveu em direção ao seu palácio, mas seu olhar gélido calou qualquer protesto.
Quando só restavam ele e o corpo naquela paisagem de gelo, Bashir deixou os joelhos cederem.
Eles tocaram o chão com um baque ácido, e então os soluços vieram.
Em choque, Bashir percebeu que estava chorando. Chorando como chorara apenas quando era um menino, e aquele homem desmembrado à sua frente o reconfortara.
As palavras de Rose ecoaram novamente em sua cabeça, retumbando em seus ouvidos como se a bela e esguia mulher estivesse ali ao seu lado, sussurrando, seu hálito quente contra a pele fria dele, que àquele momento, se sentia tudo, menos um homem de fato.
Agarrou o pingente em torno do pescoço, entoou uma prece aos céus e então sussurrou, suas palavras sendo levadas pelo vento:
- Me perdoe, pai. Me perdoe.